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Snipers, homens armados com fuzis, carros blindados, celulares registrados no exterior e reuniões em locais isolados, sem que pudessem ser presenciadas por testemunhas. É assim que a Polícia Federal descreve o funcionamento do grupo denominado “A Turma”, uma estrutura clandestina de intimidação e vigilância que, segundo as investigações do caso Master, atuava para proteger os interesses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de sua família.
O grupo, formado por policiais federais, operadores do jogo do bicho e integrantes com perfil paramilitar, é apontado pela PF como responsável por ameaçar desafetos, acessar informações sigilosas e executar uma série de ações ilícitas em favor do empresário.
As informações constam da representação da PF tornadas pública na terça-feira por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo os investigadores, a organização era controlada por Vorcaro, junto com seu pai Henrique Vorcaro, e gerenciada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.
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A investigação aponta que, mesmo após a deflagração das duas primeiras fases da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025 e janeiro de 2026, Henrique Vorcaro continuou demandando os serviços da organização e viabilizando o repasse de recursos, seja por intermédio do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, seja por contato direto com Felipe Mourão.
Blindados e homens armadosDiálogos na investigação da PF sobre caso Master — Foto: PF
Um dos episódios descritos pela Polícia Federal envolve um encontro organizado por Manoel Mendes Rodrigues, apontado como líder do braço da Turma no Rio e operador do jogo do bicho. Em conversa interceptada em fevereiro deste ano, Manoel relata a um interlocutor que Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, e outro homem ficaram assustados ao serem recebidos por homens armados e veículos blindados.
Conforme diálogo, o interlocutor recorda que os visitantes foram recepcionados por pessoas portando fuzis. Manoel afirma que havia determinado que “nosso pessoal” fizesse a segurança e que todos permanecessem “o mais paisana possível”. O interlocutor então comenta que a estratégia fracassou. Um dos presentes ficou sem conseguir falar diante da cena, conta um deles. “Eles falaram que parecia a Rússia do Putin”, diz Manoel, em referência ao aparato de segurança montado no local.
Ameaça a ex-chef de cozinha
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Diálogos na investigação da PF sobre caso Master — Foto: PF
A PF também anexou o depoimento do chef de cozinha Leandro Garcia, que trabalhou na casa de praia de Daniel Vorcaro, em Angra dos Reis. Ele afirmou ter sido ameaçado por um grupo de cerca de 7 a 8 pessoas, entre elas Manoel e “Sicário”.
— Ele se apresentou como Manoel, ‘vim a mando do seu Daniel e mexo com jogo’ —, disse o homem, de acordo com o relato do cozinheiro.
Ainda segundo Leandro, Manoel afirmou que havia sido encarregado de descobrir se ele possuía informações, imagens ou qualquer material ao banqueiro.
— Ele se apresentou como Manoel, ‘vim a mando do seu Daniel e mexo com jogo’ —, disse o homem, de acordo com o relato do cozinheiro. Ainda segundo Leandro, Manoel afirmou que havia sido encarregado de descobrir se ele possuía informações, imagens ou qualquer material ao banqueiro.
Leandro ainda relatou à PF que o homem disse que Vorcaro havia o mandado “levantar tudo” sobre o cozinheiro. Durante a conversa, o homem apontou para o grupo que o acompanhava e fez uma advertência velada:
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— Ele falou: ‘Se o senhor tiver alguma coisa, a gente não quer voltar aqui para atrapalhar o senhor’ — disse Leandro ao reproduzir a conversa com Manoel.
Trocas de mensagens de Vorcaro com o Sicário mostram os pedidos para que fossem levantadas informações sobre o chef de cozinha. O banqueiro encaminhou ao Sicário a carteira de identidade e os dados pessoais de Leandro e de outro homem, apontado por Vorcaro como o principal alvo. O Sicário, então, diz que buscou informações e não há nada nos sistemas da PF e do Tribunal de Justiça.
Dias depois, em 1º de junho de 2024, Vorcaro voltou a tratar do assunto com Felipe Mourão após receber um vídeo gravado por Leandro. Segundo a PF, o banqueiro defendeu uma ação imediata e sugeriu que o Sicário fosse acompanhado de Fabiano Zettel e policiais. “vamos ter que agir antes de eu voltar. Ideal é vc ir com Fabiano e com polícia. (…) Não sei nem se e melhor turma policia ou bicheiro pra vagabundo carioca desse. Policia as vezes não vai intimidar tanto”, escreveu Vorcaro.
Sniper para fazer segurança
Diálogos na investigação da PF sobre caso Master — Foto: PF
Outro diálogo reproduzido pela PF mostra um relato de Manoel sobre a utilização de um sniper para garantir a segurança durante uma reunião ligada aos interesses de Henrique Vorcaro. Ele conta a um interlocutor ligado ao pai do ex-banqueiro que havia rompido contrato com um grupo anterior de segurança e ao narrar um encontro com o antigo responsável, Manoel diz que o homem o recebeu acompanhado de quatro policiais militares. “Eu fui sozinho e botei um sniper de longe”, afirmou.
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Segundo a PF, Manoel Mendes Rodrigues lidera no Rio um braço de “A Turma” composto por pelo menos quatro a seis integrantes ainda não identificados. Os investigadores afirmam que a estrutura dispõe de armamento de grosso calibre, incluindo fuzis, veículos blindados e recursos típicos de organizações paramilitares.
A PF identificou ainda o uso sistemático de números estrangeiros e mecanismos destinados a dificultar o rastreamento das comunicações do grupo. Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, passou a utilizar um telefone registrado na Colômbia após a terceira fase da Operação Compliance Zero. Já o policial federal aposentado Sebastião Monteiro Júnior, apontado como integrante de “A Turma”, utilizava exclusivamente um número dos Estados Unidos nas conversas com Marilson Roseno.
A PF afirma que o uso de linhas internacionais, mensagens temporárias, ligações telefônicas e encontros presenciais fazia parte de um padrão adotado pela organização para “não deixar rastros por mensagem”.
As investigações também registraram encontros reservados entre integrantes do grupo. Em março de 2026, Marilson Roseno convidou Sebastião Monteiro para uma conversa pessoal. Imagens de câmeras de segurança mostram que, após receber a ligação do colega, Marilson deixou um grupo de amigos na área de lazer do prédio e seguiu com Sebastião para o pilotis, onde os dois permaneceram sozinhos por cerca de uma hora e dez minutos.
Diálogo sobre o planejamento da Turma — Foto: Reprodução
Diálogos interceptados pela Polícia Federal (PF) apontam que Vorcaro planejou uma emboscada com ‘droga’ para se vingar do DJ e ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly. O plano começou a ser executado pela chamada “Turma”, grupo criminoso pago por Vorcaro para intimidar e espionar desafetos. Rony Seikaly jogou na NBA de 1988 a 1999. Ele teve um relacionamento com Martha Graeff, com quem tem uma filha. À época das mensagens, Graeff estava em um relacionamento com Vorcaro.
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Vorcaro chegou a cogitar uma emboscada com drogas contra Seikaly, e citou pressão da polícia e da milícia. Os integrantes da Turma, usando o login de uma servidora do Ministério Público Federal, chegaram a produzir um ofício falso à Interpol para buscar informações sobre Seikaly.
As conversas ocorreram em outubro de 2024, entre Daniel Vorcaro e Felipe Mourão, conhecido também como “Sicário”. Vorcaro, nos diálogos interceptados pela Polícia, sugeriu simular um incidente envolvendo drogas e disse que investiria até R$ 10 milhões, alegando que seria para “ensinar que com filho não se mexe”.